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Lohengrin


Aqueles cabelos. Eu e minha mania de querer captar a aura das pessoas justamente na primeira impressão, quando ela é fraca, tênue. Faço isso porque, humildemente, não costumo falhar. As evidências estão nos cabelos, é o ponto-chave. A forma, a cor e a textura do cabelo determinam pelo menos metade da personalidade feminina. Ondulações suaves, tocando os ombros apenas o suficiente para não serem enforcadas, evitando sua suspensão, o que deixaria as pontas esperneando numa morte agonizante, o vento agitando-as como um pêndulo em pequenos círculos castanho-claros. Ela é prática, usa o pente apenas após o banho e nunca mais, joga um creme qualquer por cima e sai de casa antes que seus fios sequem, à contragosto deles. O vento, a poeira, o sol e o suor -  que, inevitavelmente, brota de seu couro cabeludo a partir dos 32º, considerando os 80 pontos percentuais médios de umidade - atribuem valores aleatórios à configuração de seu penteado, e o resultado final, quando devidamente enxutos, é sempre surpreendente. Para os outros, não para ela, que nem sequer carrega consigo um espelho para retocar a maquiagem que não usa. É prática, de fato. Desde que desenvolveu coordenação motora suficiente, em sua tenra infância, passava horas em frente ao espelho, escovando sua longa cabeleira sentada à penteadeira, papéis de carta espalhados por todo o quarto, a caixinha de música onde guardava seus brincos, colares e anéis entoava repetidamente uma parca adaptação de Lohengrin, de Wagner, no que a bailarina que rodopiava no centro da caixa tentava acompanhar o ritmo sem muito êxito, pois àquela altura já encontrava-se fatigada, girando aos trancos, perdendo o compasso, a compostura, a moral de ter sido selecionada entre tantas candidatas para aquela vaga, naquela caixa. Lutava contra o fim da carreira, mas já não respondia aos comandos das engrenagens abaixo de si. A corda dada na caixa não correspondia à energia disponível. E ela simplesmente não parava de pentear sua vasta cabeleira, paralisada diante do espelho e do esmero infantil evocado pelas maternidades protetoras, de um ideal de beleza que remete às trevas medievais e que perdura no imaginário feminino desde então. Cãibras. E mais uma apresentação de Wagner.

Ela cansou do emaranhado capilar no dia em que levou para casa o Nevermind emprestado de sua melhor amiga - que provavelmente se chamava Amanda - e trocou o pente pela tesoura. Quando o disco já ia em On A Plain, ela criou finalmente alguma determinação e despertou da inércia que a mantinha, olhos cegos, em frente ao espelho, com seu instrumento de corte à mão direita, polegar, indicador e médio abrindo e fechando suas pernas. Puxou uma de suas longas madeixas e talhou-a sem piedade, seu olhar absorto em um transe hipnótico, ela e o espelho, sua imagem refletida de forma repetida há anos. O espelho não digeriu o primeiro golpe da tesoura, custando a acreditar na mudança, teimando em refleti-la, numa vã tentativa de demove-la de prosseguir em seu projeto. Mas ela já nem olhava mais no espelho. Sua visão já alcançava além da superfície de vidro, um estado de liberdade que a premiaria com mais duas horas diárias de vida. Os restos mortais de sua pelugem craniana criaram uma densa superfície no chão de seu quarto, um carpete macio e castanho, que revolvia-se ao menor vento, ao menor suspiro, o que, sob a luz alaranjada do pôr-do-sol iminente daquela tarde que, passada a fúria da tesoura, encerrava solenemente seus serviços, mergulhando suavemente através de sua janela, dava ao quarto um aspecto outonal. Nesse dia, Wagner não tocou, um mudo anúncio de sua precoce aposentadoria. Precoce, porém bem-vinda. Já não tinha ela mais pernas para tanto cabelo. Nem coreografia para o próximo ato.

Pitangas, a parte primeira

- Doroteia! Doroteia! - veio gritando Arnaldo, peito nu, pés descalços, poeira até os joelhos, uma algazarra só.

Gritava a plenos pulmões, desafinado pela idade, uma magreza ágil de suricato. Corria, sabe-se lá se por vigor, urgência ou apenas desejo de ser o primeiro a divulgar a notícia.

Ao chegar aos pés de uma atônita - fosse por susto, nojo ou apenas ansiedade de ser a primeira a receber a notícia - Doroteia, Arnaldo dobrou o corpo para a frente, pondo as mãos nos joelhos latejantes, e arfava sua taquicardia para o chão.

Doroteia na expectativa, Arnaldo perdendo todo o tempo que ganhara em sua corrida ao recobrar o fôlego.

- Ai, Arnaldo, o que é?, fala logo.
- Amé.
- Hein?
- Améri.
- Solta, menino!
- Américo, abigobal! - gritou Arnaldo ao desagradecimento da menina.
- Que tem o Américo? - perguntou com brilho nos olhos, sorrisinho cretino indisfarçável. Depois parou e refez a pergunta, agora em tom grave:
- Que tem esse menino, esse Américo?
- Ele... Arf. Arf. Arf.
- Fala, Arnaldo!

Fez-se ouvir, súbito assim que nem eu esperava, um galope desenfreado de outras dez pernas tão arnaldas quanto as do sujeito que bofava seus últimos ares ainda encarando o pó da rua, agora agranevoado pelas sombras que sacudiam multidirecionalmente o que pisavam pela frente. Eram seus rivais de imprensa buscando o Pullitzer das notícias populares da Rua Santos Moreira. Tal qual um carro que descobre que quebrou na reta de chegada, Arnaldo era pura falta de ação. Os outros já vinham disputando desde a esquina a apregoação da boa nova como corretores da bolsa, atropelando-se a esmos, voz sobre voz, e quando aproximaram-se em passos delicados de manada, não se soube de qual depósito de cáries partira o anúncio:

- Américo quer namorar com você!

[...]

BELONG, to


Estar. Madrugada muda, junto com o frio que estimula o despertar inoportuno para uma ida ao banheiro. Automaticamente, minha vista já se acostuma ao breu, dada a escuridão que pesa no apartamento, viscando as paredes, derretendo do teto como tinta sintética e o tom é esse, nada mais que. Não, já não é minha casa. Não assim, do jeito que ela me olha, paredes quatro, lançando todo o concreto sobre mim, me estranhando como um cachorro bravo. Já não é minha casa, já não é confortável como fora. Como lá fora. Já não me protege mais do frio, já não me abriga na dor que aperta com a saudade, já não me embala nos sonos perturbados. Não é.

Ela só me perscruta, observando meus passos agora inseguros. Para de me seguir, que merda. As paredes, todas elas, olham sem uma expressão definida para mim, o que me aborrece. Não há uma intenção primária, um ódio me atravessando, somente o estranhamento, rosnando silenciosamente em minha direção, como qualquer casa faria com o dono que lhe ofereceu vida, personalidade e sei lá mais o quê enquanto esteve ali. Agora, só um estranho. Vai pra lá, que saco.

Ela diminuiu. Minha casa agora é pequenina, abaixo a cabeça e me curvo para ligar a televisão. Acocorado, assisto a estática da madrugada, cujo som agressivo é tão uniforme quanto o silêncio, não há contrafeito. Ela me espreme até sair. Eu ainda quero ver a estática, ela não está nem aí. Não enquanto eu ali estiver. Fora, vai, vai, xô. Ingrato.

Desculpa, mas não é minha. Não é essa, nunca foi. O gelo que dela emana apavora. Desde o começo, nos engasgamos. Porque não nos somos. Só houve um momento de acerto. E foi o momento do acerto final, quando ambos cansamos de nossa peleja. No momento em que eu cedi, ela cedeu. Juntos, batemos na lona três vezes. Foi o momento em que eu já não pertencia, e ela não se importava. Vai embora, caralho, vai. E me deu uma nova casa, um novo lar, um novo colo. Ela já não era minha casa. Ela, sim, era. Agora era. E quanto a outra ela, nunca mais nos falamos. Apenas nos aceitamos, um como o inquilino indesejado do outro. Cada um pro seu lado, cuspindo suas lamúrias.

Agora, a casa é nua, tal qual nasceu na minha mão, tão promissora, presságio de uma vida nova, nua em páginas em branco, aguardando por ser riscada, com aquele carinho de um amante das letras por uma vagina superfície. Me risca, faz tua história em minhas costas, em meu ventre. Agora, ela é nua de novo. Arrancou as tatuagens, ficou em branco para que outro se institua. Agora, a casa é nua. Minha casa é outra. Outro colo.

Régua

Era uma canção torta, de letra confusa, de melodia quebrada, mas que era exalada no suspiro sorridente da menina. Porque mesmo sendo torta, confusa e quebrada, era uma canção - com letra e melodia - que falava o que ela queria ouvir, que explicava seus sentimentos atuais, pois também eram todos tortos, confusos e quebrados, mas não para a menina. Pois, para ela, era uma linha reta, feita na régua, com letra de forma e justificado. Eu que fui temerário, ao concluir que ela era torta, confusa e quebrada, pela ideia de que uma canção torta, de letra confusa e melodia quebrada se encaixaria com seus sentimentos igualmente tortos, confusos e quebrados. E não era. A canção, sim. Ou estou sendo frívolo novamente, no meu julgamento superficial. Porque quem sou eu pra julgar o encaixe das canções nas veias das pessoas? As que me soam normais podem ser igualmente tortas, confusas e quebradas pros outros. E eu também, apesar de me achar normal e reto.

Expurgante

Ela estava com a barriguinha inchada. Ora, sempre ficava assim quando ele punha os pés, um ante o outro, sobre o assoalho de sua casa, que - ai, ai, ai - estava imundo mais uma vez. Ela também. E ainda tinha a barriguinha inchada, porque ficava nervosa e retorcia as tripas quando o via entrar, ela que o via tão grande, superlativado em tantas coisas boas que ele nem sabia que a faziam tão bem e tão pequena para si mesma. E, com tantos benefícios num esqueleto só, ela só podia ficar com a barriguinha inchada, coitada. Ele não entendia e sempre perguntava se doía, se ela não conseguia aliviar aquele inchaço, simplesmente porque não compreendia tanto alvoroço em torno de mancebo tão normal como ele. Ela lhe devolvia uma expressão tristonha, quase desesperada, buscando nele, tão neófito nas artes médicas caseiras onde sua mãe é mestre, algum remédio, simpatia ou coisa que o valha que lhe atenuasse os efeitos do nervosismo. Não sou nada demais, não é possível que essa barriguinha seja por minha conta, e, ademais, já tem 7 meses que venho aqui às sextas, e são 7 meses que sua barriguinha só trabalha com a CLT de baixo do braço, ele dizia.

Ela, pobrezinha, alisava a própria barriga como a um filho que germinava em contrações violentas. À noite, quando ele já dormia em profundo ronco, ela virava de lado para gemer baixinho a dor de sua constipação. Eram pequenos ai, espaçados simetricamente, ai, ai, ai, baixinho, que era pra não acordar ele, que não gostava de ser acordado de madrugada. A barriguinha, coitada, inchava e inchava e até ficava vermelhinha, de tanta inflamação. Mas nada de querer funcionar. Porque elas, as vísceras, eram sentimentais, e ficavam buliçosas quando o viam chegar, tão garboso e cheio de amores, aquela avalanche de homem que se amontoava sobre ela, e o frio na barriga era tão grande que congelava. A barriguinha inchada, apesar da dor, era uma dor boazinha, porque a lembrava de quanto gostava da companhia dele.

Certa sexta, ele chegou no mesmo horário, no mesmo passo arrastado que se fazia ouvir desde a porta do elevador, atravessando o corredor lentamente, como um ceifador a espreitar por suas almas-alvo. Ela, no sofá roxo da sala, em desespero. Pôs alguns panos de cozinha por baixo da blusa, sem nem atentar para a ridicularidade da composição, que tinha acabamento infantil na tentativa de simular uma barriguinha inchada. Isso porque ela não estava com a barriguinha inchada. Muito pelo contrário, sua barriguinha trabalhara bastante nesta sexta. Ele, atravessando a soleira da porta, olhou assustado, levemente indignado, para a pontinha da toalha azul que pendia por baixo da blusa de gatinhos. Aproximou-se dela, que estava nervosa como sempre, mas não mais pelo inchaço na barriguinha, mas pela ausência dele, pois - sabia ela - ele iria notar. Tocando-lhe a barriga felpuda, ele a olhou boquiaberto. Sua barriguinha, disse e parou. Ela tremia de bater os dentes. Onde estão as borboletas daqui?, ele perguntou. Voaram, ela respondeu, mudando a entonação por pelo menos quatro vezes nessa única palavra. Você as soltou, e ela ficou sem saber se ele afirmava ou questionava, então preferiu titubear em silêncio. E em silêncio ficaram.

Lá fora, borboletas, das que lembram batatas de onda, flauteavam alhures, buscando outra barriguinha para hospedar. Seu trabalho ali já estava feito. Os dois, voltando ao apartamento, sorriam um para o outro. A barriguinha inchada não mais os atrapalharia. O amor instalou-se em definitivo. E ele não mais precisava fingir dormir para que ela gemesse seus ai sossegadamente.
TeXXXtinhos
X
A caixa

Passando suas compras pela esteira, foi surpreendido pela indignação da caixa, quando esta tomou ares de horror ao lançar seu leitor de código de barras contra o inocente pacote de camisinhas.

- Você... você usa camisinha?

Debochado e natural como só ele, respondeu na lata:

- Uai. Você não?
- É que - risinho escancarado, sem esforço algum para ser discreto - é estranho ver um pacote de camisinhas junto a mamões, sucrilhos e detergente.
- Então, nessa sua linha, eu só poderia comprar camisinha em sex shop, certo?

E ria, ria, ria, balançando a cabeça. E, bonitinha como era, seria inevitável terminar sua noite na carreta do caminhão dele.

- Ainda na sua lógica, talvez devêssemos ter transado num carrinho de supermercado, não?

E ria, ria, ria, pobre inocente menina. E mal usaram a camisinha.

The Future Of Drones

Since the Technological Security Act of 2012, drones are everywhere. Their implementation in the public space was fairly easy as most people were amazed by this multitude of flying objects that was intelligently avoiding them. With time, they barely saw them anymore and only tourists and children were still paying attention to those silent flying machines.

The first ones implemented were strictly dedicated to surveillance as the Congress fermly stipulated in order not to worry the population. However, the riots in November 2012 in Detroit followed by what is now known as the Brooklyn insurrection in April 2013 pushed the legislative power to elaborate and vote the Civil Peace Preservation Act that saw a whole new arsenal of various drones to appear in public space. The anti-riots one, for example were distributed in two categories: dissuasive and lethal. That is how we just assisted to the largely documented debate around the recent death of Melvin Jones in New Orleans, apparently killed by mistake by a lethal class Drone Epsilon. Nevertheless, as proven during the trial that opposed Jones’ family and the Louisiana State, the very concept of mistake is inapplicable to a machine and thus cannot be claimed as the object of a judiciary procedure.

This embarrassing story cannot hide the reality: Drones are here and they are now indivisible from our security strategy. The debate around them mostly concerns their field of action and only few radical activists are still advocating for their absolute withdrawal from the public space. Among them, Professor Carolyn Youn even argues that it might even be too late as drones already gathered enough artificial intelligence in order to revolt against their creators if the latter would attempt to restrain them…

Caroll Herman. The New York Times : December 04th 2016
 

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