Ela estava com a barriguinha inchada. Ora, sempre ficava assim quando ele punha os pés, um ante o outro, sobre o assoalho de sua casa, que - ai, ai, ai - estava imundo mais uma vez. Ela também. E ainda tinha a barriguinha inchada, porque ficava nervosa e retorcia as tripas quando o via entrar, ela que o via tão grande, superlativado em tantas coisas boas que ele nem sabia que a faziam tão bem e tão pequena para si mesma. E, com tantos benefícios num esqueleto só, ela só podia ficar com a barriguinha inchada, coitada. Ele não entendia e sempre perguntava se doía, se ela não conseguia aliviar aquele inchaço, simplesmente porque não compreendia tanto alvoroço em torno de mancebo tão normal como ele. Ela lhe devolvia uma expressão tristonha, quase desesperada, buscando nele, tão neófito nas artes médicas caseiras onde sua mãe é mestre, algum remédio, simpatia ou coisa que o valha que lhe atenuasse os efeitos do nervosismo. Não sou nada demais, não é possível que essa barriguinha seja por minha conta, e, ademais, já tem 7 meses que venho aqui às sextas, e são 7 meses que sua barriguinha só trabalha com a CLT de baixo do braço, ele dizia.
Ela, pobrezinha, alisava a própria barriga como a um filho que germinava em contrações violentas. À noite, quando ele já dormia em profundo ronco, ela virava de lado para gemer baixinho a dor de sua constipação. Eram pequenos ai, espaçados simetricamente, ai, ai, ai, baixinho, que era pra não acordar ele, que não gostava de ser acordado de madrugada. A barriguinha, coitada, inchava e inchava e até ficava vermelhinha, de tanta inflamação. Mas nada de querer funcionar. Porque elas, as vísceras, eram sentimentais, e ficavam buliçosas quando o viam chegar, tão garboso e cheio de amores, aquela avalanche de homem que se amontoava sobre ela, e o frio na barriga era tão grande que congelava. A barriguinha inchada, apesar da dor, era uma dor boazinha, porque a lembrava de quanto gostava da companhia dele.
Certa sexta, ele chegou no mesmo horário, no mesmo passo arrastado que se fazia ouvir desde a porta do elevador, atravessando o corredor lentamente, como um ceifador a espreitar por suas almas-alvo. Ela, no sofá roxo da sala, em desespero. Pôs alguns panos de cozinha por baixo da blusa, sem nem atentar para a ridicularidade da composição, que tinha acabamento infantil na tentativa de simular uma barriguinha inchada. Isso porque ela não estava com a barriguinha inchada. Muito pelo contrário, sua barriguinha trabalhara bastante nesta sexta. Ele, atravessando a soleira da porta, olhou assustado, levemente indignado, para a pontinha da toalha azul que pendia por baixo da blusa de gatinhos. Aproximou-se dela, que estava nervosa como sempre, mas não mais pelo inchaço na barriguinha, mas pela ausência dele, pois - sabia ela - ele iria notar. Tocando-lhe a barriga felpuda, ele a olhou boquiaberto. Sua barriguinha, disse e parou. Ela tremia de bater os dentes. Onde estão as borboletas daqui?, ele perguntou. Voaram, ela respondeu, mudando a entonação por pelo menos quatro vezes nessa única palavra. Você as soltou, e ela ficou sem saber se ele afirmava ou questionava, então preferiu titubear em silêncio. E em silêncio ficaram.
Lá fora, borboletas, das que lembram batatas de onda, flauteavam alhures, buscando outra barriguinha para hospedar. Seu trabalho ali já estava feito. Os dois, voltando ao apartamento, sorriam um para o outro. A barriguinha inchada não mais os atrapalharia. O amor instalou-se em definitivo. E ele não mais precisava fingir dormir para que ela gemesse seus ai sossegadamente.